Obesidade infantil: como entender o comportamento alimentar de crianças obesas

abril 12, 2017 Publicado por Ampolas de Chantilly Sem comentários
Pais que têm mais de um filho frequentemente reparam algo desde muito cedo, eles notam que cada um deles se comporta de maneira diferente em relação à alimentação.

Pais de crianças obesas normalmente notam que seus filhos adoram comer, que não podem passar diante de uma comida saborosa sem querer comê-la, mesmo quando acabaram de ter uma boa refeição. Eles reclamam que seus filhos imploram por comida quando saem para fazer compras e servem-se direto da geladeira quando estão crescidos o suficiente para abri-la. Contam que as crianças chegam até mesmo a encontrar comidas colocadas em lugares escondidos e que fazem birra quando os pais tentam moderar seu comportamento alimentar.





Como entender o comportamento alimentar de crianças obesas

As três fomes

Uma paciente jovem, que sofria de obesidade, explicou que ela tinha três tipos de fome: a fome da boca, a fome do estômago e a fome do coração.


A fome da boca

A paciente explicou que a fome da boca – os sabores de certos alimentos – era tão maravilhosa e avassaladora que ela não se sentia saciada até o momento em que já não restasse nada do alimento saboroso para comer. Ela deu o exemplo de quando fez brownies tão gostosos que não conseguiu se conter até que tivesse comido a assadeira inteira. Só então percebeu que tinha comido tanto que teve medo de se mexer e seu estômago explodir. Contou ainda que ficou sentada lá, imóvel por um longo tempo, até se sentir segura para se movimentar.

Embora o exemplo acima possa parecer extremo, ele descreve o que pode ser observado, em vários níveis, em crianças que parecem ser muito atraídas por alimentos. Uma mãe de uma criança obesa, ainda bem pequena, disse que tinha medo de levar sua filha a festas de aniversário porque ela poderia ficar plantada na mesa comendo enquanto as outras crianças estivessem ocupadas brincando.

Esses exemplos demonstram o que já foi descrito na literatura científica como responsividade aumentada para sinais alimentares externos, que leva crianças obesas a comerem alimentos saborosos e apetitosos na ausência de fome.


A fome do estômago

Uma queixa comum de pais de filhos obesos é que essas crianças não parecem saber quando parar de comer e que frequentemente comem até que não haja mais comida. Uma família contou que, ao testar sua filha de 2 anos para saber se ela era capaz de dizer quando estava satisfeita, descobriu que a menina continuava comendo e pedindo mais sem reconhecer que sua barriga estava cheia. Ela comeu até parecer ficar cansada e então teve de ser carregada para a cama porque estava muito cheia e cansada para andar.

Novamente, esse é um caso extremo que descreve uma característica comum, embora certas vezes menos grave, das crianças obesas: a de que elas têm pouca consciência de quando estão saciadas e de quando precisam parar de comer.


A fome do coração

Muitas vezes, quando estão estressadas ou chateadas, beber e comer faz as crianças obesas se tranquilizarem. Ainda bem pequenas, elas querem a mamadeira para se acalmar e, à medida que crescem, passam a gostar de bebidas doces para buscar conforto emocional. Também aprendem a comer, especialmente lanchinhos, para manter longe sentimentos desconfortáveis, e choram se o alimento lhes é recusado. Na literatura, isso é descrito como comer emocional.


O que podemos aprender a partir dos estudos científicos

Como os pais frequentemente percebem as diferenças no comportamento alimentar de seus filhos desde pequenos, eles muitas vezes ficam imaginando quanto desse comportamento é hereditário. Um estudo inicial com gêmeos e adoções feito por Stunkard et al. (1986) registrou que até 80% da diferença em adiposidade (gordura do corpo) pode ser atribuída a fatores genéticos.


1. Crianças obesas comem em um ritmo mais rápido

Liewellyn et al. (2008) relataram que em uma observação, durante as refeições, de crianças com diferentes pesos, o ritmo para comer tinha correlação com o peso de cada criança. Aquelas com sobrepeso e as obesas tinham um ritmo mais rápido, seguidas por aquelas de peso normal; as que estavam no limite inferior do peso normal apresentaram o ritmo mais lento. Pais de crianças com sobrepeso geralmente se queixam de que seus filhos “devoram” a comida, enquanto aqueles que têm filhos abaixo do peso dizem exatamente o contrário – que comem tão lentamente que as refeições se estendem por uma hora ou mais.


2. Crianças obesas respondem mais a sinais alimentares

Hill et al. (2008) descreveram que crianças obesas diferem em sua resposta a sinais alimentares. Elas são mais propensas a comer na ausência de fome quando expostas a alimentos apetitosos. Como mencionado anteriormente, a “fome da boca” parece levá-las a querer comer coisas saborosas sem considerar se estão ou não com fome.


3. Crianças obesas têm pouca consciência da saciedade

Wardle e Carnell (2009) demostraram que crianças de pesos diferentes têm respostas distintas à sensação de quando estão satisfeitas e devem parar de comer. Quando observaram a medida da circunferência abdominal de um grande grupo de crianças e compararam sua responsividade à saciedade, descobriram que quanto maior a circunferência abdominal delas, menor sua consciência de saciedade e maior o prazer que tinham com a comida.

Outro estudo, de Jansen et al. (2003), observou que, quando ganham um lanche antes da refeição, as crianças de peso normal ajustam sua ingestão de alimentos comendo menos na refeição que se segue, enquanto as crianças obesas comem tanto quanto o fariam de qualquer maneira, e ainda mais se expostas a comidas apetitosas.

Essa baixa consciência de saciedade foi descrita anteriormente como “fome do estômago”. As crianças parecem gostar tanto da comida que não reconhecem quando estão saciadas e precisam parar de comer. É difícil saber se seus sinais de saciedade são inerentemente fracos, se a “fome da boca” se sobrepõe a esses sinais ou se há uma combinação das duas coisas.


Crianças obesas envolvem-se com o comer emocional


Além das três características hereditárias descritas, as pesquisas iniciais de Braet e Van Strien (1997) mostraram que as crianças obesas envolvem-se com o comer emocional, que se correlaciona a sentimentos negativos de competência física. Como ilustrado anteriormente em “fome do coração”, crianças obesas desde cedo veem a experiência de beber e comer como tranquilizadora e aprendem a depender da alimentação para regular suas emoções.


Como os pais podem ajudar seus filhos a regular internamente sua alimentação

Pela utilização das diretrizes alimentares, os pais podem facilitar a regulação interna da alimentação nas crianças. Essas diretrizes são úteis para todas elas. No entanto, são especialmente importantes para as que comem pouco ou em excesso. Esboçaremos como determinadas diretrizes são especialmente importantes para aquelas que comem demais.


1. Aprender a diferenciar fome de saciedade

Tenha refeições regulares e um lanche à tarde, separados por intervalos de três a quatro horas, sem permissão para comer ou beber qualquer coisa entre as refeições, exceto água.

Para uma família normal, o café da manhã pode ser por volta das 7h-8h; almoço em torno do meio-dia; lanche da tarde por volta das 15h; jantar à mesa em torno das 18h30–19h. Antes que essas diretrizes sejam implementadas, os pais devem explicá-las aos filhos de modo que saibam o que esperar e que devem estar preparados para o fato de não mais haver permissão para comer lanchinhos entre as refeições estabelecidas. Quando as crianças protestam e querem comer em outros horários, devem ser informadas de que é obrigatório esperar até a próxima refeição ou lanche.

Quando se permite que comam somente dentro dos horários estabelecidos, as crianças começam a experimentar a sensação de fome e podem então aprender a diferenciá-la da saciedade no final da refeição. Elas também aprendem que devemos comer quando estamos com fome no estômago e não quando há uma comida saborosa por perto.

As crianças precisam receber uma mensagem clara de que comer é algo que se faz apenas durante as refeições e não em qualquer outra situação.


2. Reconhecer a saciedade e o ritmo lento da alimentação

Sirva pequenas porções e permita que a criança tenha outras adicionais até que reconheça que está saciada.

Os pais não devem restringir os filhos durante as refeições, mas permitir que comam pequenas porções até que fiquem conscientes de que seu estômago está cheio. Servir pequenas porções e permitir que a criança repita pela segunda, terceira ou quarta vez também desacelera seu ritmo de alimentação.

Esse é um processo de aprendizagem e pode levar um tempo, embora algumas crianças, aprendam em poucos dias quando estão saciadas e precisam parar de comer. Antes de servir a próxima porção, os pais devem perguntar: “Sua barriga ainda está com fome ou está cheia?” Isso ajuda a criança a direcionar sua atenção para o estômago e a verificar “como ele se sente”.

Os pais também devem comentar suas sensações de fome e saciedade e, em vez de dizer “Acabei”, podem se condicionar a fazer a modelagem para seus filhos dizendo “Estou cheio”. Essa linguagem se traduzirá em aumento da consciência das sensações de fome e saciedade.


3. Aprender a comer alimentos apetitosos em pequenas porções

Não tenha lanchinhos e doces à disposição em casa para não tentar a criança, mas, de tempos em tempos, esses alimentos podem fazer parte da refeição regular, e permita que ela possa comê-los primeiro, se assim ela quiser.

Esse é um dos maiores desafios para as crianças e seus pais. A obesidade aumentou não apenas em países ocidentais, mas também na Ásia, uma vez que há maior disponibilidade de lanchinhos saborosos, alimentos altamente processados, ricos em carboidratos e gordura, e doces. Crianças ganham doces como expressão de atenção dos familiares, de afeição ou como uma recompensa, e recebem agrados que frequentemente são uma ida à sorveteria ou ao McDonald’s. Elas ouvem muitas vezes que têm de comer primeiro o alimento saudável antes de experimentar uma sobremesa doce. 

Todos esses costumes se transformaram de tal forma em parte da cultura que os pais estão desatentos à mensagem que enviamos para as crianças ao fazer isso e seguem ignorando por que tantas crianças ficam “viciadas em doces”.

Desde muito novas, as crianças formam fortes associações entre experiências emocionais e as comidas que lhes são oferecidas. Ao oferecermos guloseimas a elas ao mesmo tempo que expressamos nosso afeto, os doces ficam mais doces, e, ao negarmos a sobremesa até que a criança coma os “alimentos saudáveis”, depreciamos o valor destes em sua mente e fazemos aquela mais especial. Por outro lado, quando a sobremesa se transforma em apenas outro alimento da refeição, a criança deixará de supervalorizá-la e aprenderá a comê-la com moderação.

Nesta cultura em que vivemos, as crianças precisam ser expostas a alimentos menos saudáveis e mais doces, a chamada junk food, para que aprendam a comê-los sem avidez. Isso pode ser feito servindo sobremesas de tempos em tempos, mas não todo dia nem em toda a refeição. Algumas famílias acharam útil ter “dias de sobremesa” em determinadas datas da semana, como terças, quintas e domingos. Isso foi particularmente útil para crianças que estavam acostumadas a ter sobremesas em todas as refeições.

Além disso, os pais devem limitar a quantidade de sobremesa oferecida ao filho. Se a criança pedir mais, eles podem dizer: “Isso é tudo que temos para esta refeição. Você pode comer mais em outro dia.”

Como mencionado anteriormente, os pais devem permitir que o filho coma a sobremesa na ordem que preferir – seja primeiro, seja por último. Desse modo, a criança pode escolher quando comê-la e a sobremesa deixará de ser usada como uma recompensa por ela ter comido alimentos mais saudáveis. 

Curiosamente, alguns pais contaram que no início os filhos queriam comer a sobremesa primeiro, mas, depois de algum tempo, quando perceberam que isso não importava para os pais, decidiram comê-la por último.

Essas sugestões são úteis para todas as crianças, mas são mais importantes para aquelas que querem comer alimentos saborosos logo ao vê-los e que gostam tanto deles que não percebem quando já estão saciadas.


4. Aprender a se acalmar sem a ajuda da comida

Entre 1 e 3 anos, as crianças precisam aprender a regular a alimentação, o sono e as emoções.
Essa é a idade na qual elas mostram sua frustração quando as coisas não caminham à sua maneira e fazem as famosas “birras”. Essa é a fase em que os pais precisam ensinar aos filhos que determinados comportamentos não são aceitáveis. Dependendo do temperamento da criança, esse pode ser um período de desenvolvimento muito desafiador. Algumas aprendem a interromper seu comportamento malcriado quando os pais lhes fazem uma advertência firme, como: “Não faça isso.” Contudo, outras testam os limites e mesmo depois de repetidos avisos olham diretamente nos olhos dos pais e continuam a fazer o que lhes agrada.

Algumas crianças forçam os limites e tentam controlar seus pais. O que ambos aprendem durante esse tempestuoso período de desenvolvimento é que tomar mamadeira e comer lanch nhos podem tranquilizá-las e mantê-las calmas. Isso é especialmente efetivo em crianças que gostam de beber ou comer. Elas aprendem que, quando tomam mamadeira ou comem, podem ficar calmas. Muitos pais viajam com mamadeiras e “coisinhas para comer” para ajudar seus filhos a se manterem calmos quando ficam aborrecidos ou agitados durante uma viagem, ou quando estão no mercadinho ou no consultório médico. Contudo, essa é a maneira como as crianças aprendem o comer emocional para lidar com a “fome do coração”.

Esses anos iniciais são críticos para ensinar as crianças a diferenciarem a fome física das necessidades emocionais. Os pais precisam alimentar seus filhos nos horários das refeições, quando eles estão com fome, e não devem oferecer mamadeiras ou comida em outros momentos quando pedem para beber ou comer para tranquilizar suas emoções. Os filhos podem ficar aflitos e fazer birra quando os pais não cedem, mas eles precisam aprender a se acalmar sem a comida. 


5. Aprender a ver televisão ou ir ao cinema sem comer

É melhor não estabelecer hábitos desajustados de alimentação quando a criança é nova porque fica cada vez mais difícil mudar à medida que ela fica mais velha.


Comer diante da televisão é uma combinação que se transformou em um hábito muito comum na sociedade. Aparentemente, todos fazem isso e ninguém parece questionar se esse hábito é uma boa ideia. Pipoca e cinema ficaram tão interligados que as crianças contam com ela, salgadinhos ou guloseimas para realmente aproveitarem o filme. O que os pais precisam saber é que, quando as crianças comem e assistem a um filme interessante, elas não prestam atenção se estão satisfeitas ou não. Crianças com pouco apetite podem se esquecer da pipoca enquanto estão entretidas com o filme; entretanto, aquelas que gostam de comidas saborosas comerão sem levar em conta a fome até que o alimento ou o filme acabem.


Conclusão

As diretrizes alimentares funcionam somente quando ambos os pais participam e podem ajustar seus próprios comportamentos alimentares para modelar hábitos de alimentação saudáveis para seus filhos. Isso não é fácil e frequentemente requer mudanças em seu estilo de vida.

Embora inicialmente possa ser difícil ter refeições regulares e abster-se de comer nos intervalos entre elas, uma vez estabelecidos, esses hábitos proporcionam estrutura e previsibilidade para a vida familiar, o que, por sua vez, proporciona segurança para as crianças.

Anorexia infantil: o que é, como se desenvolve e como tratar

abril 12, 2017 Publicado por Ampolas de Chantilly Sem comentários
Embora as crianças com anorexia sejam brincalhonas e cheias de energia, elas raramente mostram qualquer apetite. Aquelas que têm entre 1 e 3 anos de idade ganham peso lentamente e ficam abaixo do peso normal, por causa da baixa ingestão de alimentos. Essa falta de apetite se revela cedo, mais comumente entre os 6 meses e os 3 anos.

Chamamos esse transtorno alimentar de anorexia infantil – anorexia significando falta de apetite, e infantil porque o seu começo ocorre precocemente durante a primeira infância.

A anorexia infantil é diferente da anorexia nervosa, que começa durante os últimos anos da infância, na adolescência ou na idade adulta. O termo anorexia nervosa pode levar a confusão, porque as pessoas com esse transtorno não sofrem de falta de apetite, mas restringem a ingestão de comida por terem medo de ser ou ficar gordas. Elas sofrem distorções na maneira como enxergam seus corpos, vendo-se corpulentas ou gordas, quando na verdade são magras ou mesmo raquíticas. Enquanto a anorexia nervosa é observada principalmente entre meninas e mulheres jovens, a anorexia infantil manifesta-se tanto em meninas como em meninos.




Como a anorexia infantil se desenvolve

Alguns bebês com anorexia já mostram falta de interesse em comer durante os primeiros 6 meses de vida. Várias mães já disseram que quando amamentavam seus filhos quando bebês, eles sugavam por pouco tempo, e se alguém entrava no quarto, ou se o telefone tocava, a alimentação era encerrada. De modo geral, a alimentação vai relativamente bem durante os primeiros 6 meses.

Contudo, quando aprendem a ficar sentadas e especialmente quando começam a engatinhar, andar e falar, e quando seu mundo se expande e torna-se cada vez mais interessante, essas crianças deixam de comer. Raramente mostram sinais de que estão com fome, e depois de poucas colheradas recusam-se a abrir a boca e não querem mais comer. Elas atiram a comida e os utensílios e tentam descer do cadeirão. Uma vez livres, parecem aproveitar o tempo e se divertir, levando os seus pais a se questionarem de onde vem tanta energia depois de comerem tão pouco.

Sua alimentação insuficiente e a falta de interesse por comida prosseguem na idade escolar. Depois que crescem, algumas dessas crianças conseguem verbalizar como se sentem em relação à alimentação. Elas dizem que “comer é chato”, e que não têm tempo para consumir seu lanche na escola porque é o único momento em que podem conversar com seus amigos. Quando estão ocupadas brincando ou fazendo outras atividades, se esquecem de comer. Elas protestam ao serem chamadas para a refeição à mesa; parecem ficar satisfeitas rapidamente e depois de algumas poucas colheradas querem se levantar e fazer outra coisa mais interessante que comer. A maioria delas adora falar em vez de se alimentar. Uma menina de 7 anos, quando indagada por que não comeu quando seus pais e amigos a levaram a um restaurante, respondeu: “Minha boca está mais para conversa.”

Após alguns meses de pouco ganho de peso, elas exibem desaceleração na curva de crescimento, embora seu desenvolvimento intelectual prossiga normalmente. Para algumas delas, esse déficit de crescimento fica muito visível e, conforme o tempo passa, aos 3 anos de idade se parecem com uma criança de 2, ou aos 9 podem ser confundidas com um aluno da primeira série. Entretanto, há aquelas que continuam a crescer a uma taxa normal e, por isso, tornam-se crianças extremamente magras.


O impacto da anorexia infantil sobre os pais

Para os pais, principalmente para as mães de primeira viagem, os sinais de falta de fome dados por seus filhos e a recusa de comer são frustrantes e preocupantes. Eles se perguntam por que os filhos dos vizinhos e amigos falam quando têm fome e comem sem problemas, enquanto o seu filho não quer comer. Eles se culpam e se perguntam o que estão fazendo errado. Distraem os filhos com brinquedos, o que ajuda temporariamente, já que as crianças os adoram e permitem que os pais coloquem comida em suas bocas enquanto estão distraídas. No entanto, os pais sempre têm que apresentar brinquedos novos e mais interessantes para conservá-las entretidas de modo que abram suas bocas, sem a consciência de estarem sendo alimentadas.

Alguns pais tentam persuadir os filhos a comer mais, e correm atrás deles com uma colher enquanto os pequenos se divertem com a perseguição e ocasionalmente param para aceitar um pouco de alimento, o que reforça o comportamento dos adultos de manter esse jogo. Outros deixam a mamadeira ou a comida à disposição para que as crianças se sirvam caso se sintam dispostas a comer, e alguns chegam a se levantar para alimentá-las à noite. Alguns deles ficam tão desesperados que tentam colocar a comida à força na boca da criança. O medo do que pode acontecer com ela caso não coma, de que isso vá afetar o desenvolvimento de seu cérebro, de que ela morra, é tão poderoso que os pais, tão racionais em outras situações, perdem toda a perspectiva e ficam à mercê dos pequenos.


O efeito sobre a relação entre pais e filho

Infelizmente, quanto mais os pais tentam ajudar seus filhos a comer, distraindo-os, persuadindo-os, implorando-lhes ou forçando-os, mais difícil a alimentação se torna. Pais e filho entram em conflito e começa uma luta por controle (Chatoor et al., 1998). As crianças querem brincar e ficar longe da comida e da mesa, e os adultos querem que elas comam um pouco mais para que cresçam. Às vezes, esse conflito durante a refeição contamina suas outras interações. Isso envenena toda a relação e pode afetar o desenvolvimento da criança. A correlação entre baixo peso e desenvolvimento cognitivo não é significativa (Chatoor et al., 2004). No entanto, existe uma forte correlação entre a intensidade do conflito entre mãe e filho durante a refeição e o baixo desempenho em testes de desenvolvimento. É muito importante que os pais entendam isso porque aquilo que mais temem, ou seja, que seus filhos tenham problemas de desenvolvimento por não ganharem peso de forma adequada, é exatamente o que pode acontecer, não pelo baixo peso, mas por causa da tensão e do conflito durante as refeições.


O que torna essas crianças especiais

A maioria dos pais fica admirada de como seu filho pode ser tão ativo, brincalhão e incansável a despeito do fato de comer quase nada. Estudos nos fornecem alguns insights para a melhor com- preensão desse fato. Quando comparamos os batimentos cardíacos de crianças com anorexia infantil com o daquelas classificadas como “comedores saudáveis” em três situações, com diferentes demandas sociais, descobrimos que as primeiras tinham um ritmo mais acelerado desde o início – quando estavam sozinhas com suas mães olhando um livro de imagens e durante a segunda situação, quando um estranho entrava na sala e fazia perguntas sobre figuras de outro livro. Contudo, de forma mais interessante, na terceira situação, quando ganhavam um brinquedo para se entreter, e a mãe e o estranho ficavam afastados, descobrimos que os comedores saudáveis relaxavam e seus batimentos cardíacos baixavam, ao passo que as crianças anoréxicas ficavam mais excitadas e tinham um aumento ainda maior de sua frequência cardíaca (Chatoor et al., 2004).

É importante saber que a frequência cardíaca de nosso corpo aumenta automaticamente durante atividades físicas e quando estamos emocional e cognitivamente entretidos. Isso permite que o sangue se movimente para os órgãos que necessitam de energia adicional para essas atividades – ao que comumente se refere como “adrenalina fluindo.” Por outro lado, quando relaxamos, quando estamos prontos para dormir ou comer, nosso metabolismo abaixa automaticamente, as frequências cardíaca e respiratória diminuem, e a oferta de sangue vai para os órgãos que promovem a digestão e o crescimento.

Esse mecanismo funciona de forma diferente em crianças com anorexia infantil. Em vez de relaxar e baixar os batimentos cardíacos, como acontece com os comedores saudáveis, elas ficam ocupadas olhando a mãe e o estranho, e entretendo-se com o brinquedo, tudo ao mesmo tempo, e sua frequência cardíaca sobe ainda mais. Essa dificuldade de desligar-se da estimulação e relaxar ajudou a entender a dificuldade que elas têm para fazer o mesmo quando precisam comer ou são colocadas para dormir. Um dos pais colocou muito bem a questão quando disse que sua filha de 7 anos “preferia brincar e falar a comer, e ler a dormir”.



Muitas dessas crianças têm dificuldade não apenas com a alimentação – elas também não conseguem se acalmar e desligar seu entusiasmo com o mundo quando precisam ir dormir. Muitos pais disseram que pode levar uma hora, ou mais, para que seus filhos mergulhem no sono, e observa-se muitas crianças “bêbadas de sono”, mas incapazes de interromper a brincadeira até cair literalmente no chão. Um pai descreveu isso dizendo que o “botão de desligamento” dessas crianças não funciona.
Descobrimos ainda que muitas daquelas que sofrem de anorexia infantil não são apenas crianças muito intensas que funcionam em “alta rotação”, mas são também muito obstinadas e podem ser bastante desafiadoras em relação a seus pais. Elas não gostam de receber “não” como resposta e continuam fazendo o que querem fazer. Ficam intensamente chateadas quando as coisas não caminham a seu modo. São dadas a birras e têm dificuldade de se acalmar quando perdem o controle. Ao combinarem tudo isso com seus padrões irregulares de alimentação e sono, elas se tornam um desafio e tanto para os pais.



O que acontece quando essas crianças ficam mais velhas

A esperança de muitos pais é que os filhos simplesmente atravessem essa fase de recusa de alimentação e baixo crescimento e comecem a comer melhor à medida que fiquem mais velhos, e que, quando isso acontecer, eles possam conversar sobre a questão da alimentação de uma maneira mais razoável.

Até esse momento, as informações que temos provêm de dois estudos sobre anorexia infantil em que houve um acompanhamento da criança até a idade escolar. Uma pesquisa feita em Roma identificou 70 crianças que sofriam desse problema quando estavam com idade entre 6 meses e 3 anos e que foram posteriormente avaliadas aos 5 anos e de novo aos 8. Por diversas razões, elas foram submetidas a poucas intervenções no momento do diagnóstico, o que nos deu algum entendimento sobre o desenvolvimento natural desse transtorno alimentar (Ammaniti et al., 2011).

No momento do diagnóstico, as crianças estavam moderada ou gravemente malnutridas. Embora metade delas tenha continuado nessa condição, de forma leve ou moderada, a outra metade teve seu peso normalizado por volta dos 8 anos de idade. No entanto, quando comparadas com um grupo controle de comedores saudáveis, continuaram a mostrar sinais precoces de saciedade, e à medida que os anos passavam, tornaram-se cada vez mais exigentes em relação aos alimentos que queriam comer. Além disso, mostraram mais sintomas de ansiedade, queixas somáticas e problemas de comportamento que o grupo controle de comedores saudáveis.

Um estudo em Washington DC acompanhou 32 crianças com idades entre 1 e 3 anos e meio até a metade e o final da infância quando chegaram aos 7 a 13 anos de idade. No início, seus pais participaram de um estudo de tratamento, recebendo instruções de como implementar as diretrizes alimentares e o procedimento de pausa.

Durante o acompanhamento, dois terços das crianças mostraram padrões alimentares saudáveis e bom crescimento, ao passo que o restante continuou a apresentar vários graus de peso deficitário para a idade. Embora tenham melhorado sua ingestão de alimentos e seus padrões alimentares, algumas continuaram magras. Os pais, contudo, estavam aliviados pelo fim do conflito durante as refeições e passaram a aceitar que os filhos faziam parte do grupo de pessoas magras. Quatro dessas crianças estavam atrasadas em seu crescimento, o equivalente a 2 a 3 anos mais baixas que o esperado para a idade.

Observamos que aquelas cujos pais, pelos mais diversos motivos, não tinham conseguido seguir as diretrizes alimentares e o procedimento de pausa continuaram a criar conflitos durante as refeições, apresentaram baixo crescimento e exibiram mais sintomas de ansiedade e distúrbios do sono.

Curiosamente, não houve relação entre o desempenho cognitivo e o peso das crianças no momento do diagnóstico e durante o acompanhamento. Na fase de acompanhamento, cerca de metade das crianças obteve rendimento normal em testes formais de inteligência, enquanto o restante ficou acima da média, e alguns atingiram o nível máximo. Uma das crianças, que continuou magra mesmo tendo melhorado seus hábitos alimentares, superou todas as outras crianças, inclusive aquelas saudáveis do grupo controle (Chatoor et al., 2011).

Esses dois estudos, de Roma e Washington, demonstraram que as crianças com anorexia infantil, quando não tratadas, frequentemente continuam a comer e a crescer de forma deficitária e correm o risco de sofrer de ansiedade, distúrbios do sono, sintomas somáticos e problemas de comportamento. Por outro lado, no caso dos pais que conseguem seguir as diretrizes alimentares e o procedimento de pausa, os filhos apresentam melhores padrões alimentares, melhora do crescimento e desenvolvimento emocional saudável.


Como os pais podem ajudar seus filhos

O principal desafio dos bebês e crianças com anorexia é reconhecer a fome e aprender a comer até ficarem saciados. Essas crianças são curiosas e brincalhonas e parecem não ter a consciência desses sinais internos.

Alguns bebês já revelam essa característica nos primeiros meses de vida, quando ainda são alimentados no colo, seja no peito ou na mamadeira. Quando estão comendo e alguém entra no quarto ou o telefone toca, eles ficam distraídos e interrompem a alimentação. Algumas contaram que alimentá-los em um quarto silencioso, com uma iluminação suave e cobertos por um tecido leve, pode ser de muita ajuda. Estabelecer um horário regular para as refeições e não alimentá-los com muita frequência também é útil para que eles próprios estabeleçam um ritmo regular de fome e saciedade.

Uma vez que adquirem mobilidade, quando aprendem a andar e a falar, e o seu mundo se torna cada vez mais interessante, tem início o período mais desafiador. Essas crianças demonstram seu aborrecimento no momento da refeição agarrando e jogando o que têm diante de si, colheres, outros utensílios e a comida. Depois de algumas colheradas, querem descer do cadeirão e sair zanzando pela casa.

Muitos pais caem na armadilha de tentar obter a atenção dos filhos com brinquedos e vídeos para distraí-los enquanto colocam a comida em suas bocas. Porém, essa é somente uma solução temporária e o tiro acaba saindo pela culatra, porque isso exigirá brinquedos cada vez mais interessantes para alcançar a distração desejada. Por outro lado, as crianças dessa idade gostam de estar no controle, e dar-lhes uma colher para que pratiquem a alimentação independente, enquanto se usa outra para alimentá-las, pode evitar a “batalha da colher” que certamente se seguiria.

Também é útil introduzir alimentos que possam ser comidos com as mãos – pequenos pedaços que se desmanchem na boca –, e dar às crianças um ou dois pedaços de cada vez, para que não haja acúmulo de comida e os pais possam se ocupar apenas com elas. Os pais têm a tendência de pôr muita comida diante do filho, o que serve somente como um convite para que ele a jogue. Algumas crianças mais velhas se sentem oprimidas quando há muita comida diante delas, e então desistem de comer.

Também é importante não alimentar as crianças com muita frequência (incluindo mamadeira ou peito), para que elas experimentem a sensação de fome, e isso pode ser alcançado somente se elas comerem a cada três ou quatro horas, nunca mais do que isso. Muitos pais adotam o padrão de deixar que a criança tenha acesso constante à mamadeira ou à comida, na esperança de que cada caloria ingerida valha a pena. Contudo, isso é muito prejudicial, pois as pequenas quantidades que as crianças eventualmente comem ou bebem vão apenas comprometer seu apetite e não serão suficientes para o seu crescimento.

Uma vez que as crianças se tornam mais aptas a se alimentar de forma independente, é muito importante que façam as refeições junto com a família. Não há nada mais importante para elas do que observar o exemplo de seus pais se alimentando. Elas querem experimentar aquilo que veem os pais comendo, e dar-lhes pequenas quantidades da comida é uma forma de introduzir novos alimentos em sua dieta e de tornar as refeições mais interessantes.


Esse também é o momento em que as crianças precisam aprender a comer até que se sintam saciadas. Uma das características das crianças com anorexia é que elas experimentam uma saciedade precoce, param de comer assim que o incômodo da fome desaparece, e querem levantar-se e brincar. Mantê-las sentadas à mesa, ensinando-lhes que têm de permanecer assim até que as barrigas do papai e da mamãe estejam cheias, ajuda-as a se alimentar por mais tempo e a aprender a comer até se sentirem saciadas. Mas isso nem sempre se dá de maneira tranquila e as crianças costumam desafiar os pais querendo se levantar antes da hora.

Essas crianças são muito ativas e para elas é muito difícil se acalmar para comer e dormir. Ajudá-las a aprender a se sentar à mesa para que possam comer até ficarem satisfeitas é fundamental para que comam as quantidades adequadas ao seu crescimento. Ao aprenderem a se acalmar quando estão aborrecidas, elas ficam mais tranquilas para se alimentar e dormir adequadamente.